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segunda-feira, 14 de março de 2022

Atividade sobre Romantismo - poema "Navio Negreiro", de Castro Alves



# Romantismo no Brasil (Terceira Geração)

O texto abaixo é uma parte do poema “O Navio Negreiro”, escrito em 1869 pelo poeta baiano Castro Alves - da Terceira Geração do Romantismo no Brasil. Castro Alves - conhecido como "O Poeta dos Escravos, apoiava a causa abolicionista num época em que  escravatura ainda estava sendo praticada no país.

“Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!”
(ALVES, Castro. O Navio Negreiro. São Paulo: Global, 2016)

1. Qual o tema deste poema?
a) a escravidão no Brasil
b) as navegações portuguesas

2. O que esse poema descreve?
a) expressões dos africanos após a abolição da escravatura, mesmo com a intenção dos escravocratas de tornar essa transição a mais longa possível.
b) imagens terríveis da situação dos africanos arrancados de suas terras e mal tratados nos navios negreiros que os traziam para trabalhar para senhores no Brasil.

3. O poema faz uso de imagens e expressões fortes com a intenção de
a) denunciar de forma realista o sofrimento a que eram submetidos os negros ao serem transportados da África para o Brasil.
b) declamar um poema para lembrar o período em que escravocratas colocavam em prática métodos de captação de mão de obra para o Brasil.

4. Identifique no poema os versos que o poeta compara com o movimento dos escravos submetidos ao chicote
a) "Legiões de homens negros como a noite, / Horrendos a dançar…"
b) "No turbilhão de espectros arrastadas, / Em ânsia e mágoa vãs!”

5. Qual das características abaixo podemos constatar no poema "O Navio Negreiro"?
a) Índio como herói brasileiro
b) Poesia social e libertária
c) Eu lírico pessimista
d) Negação do amor platônico

6. No verso "Legiões de homens negros como a noite", a conjunção "como" expressa ideia de
a) tempo
b) causa
c) comparação
d) condição

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sábado, 12 de junho de 2021

Atividade sobre prosa a partir do romance "Lucíola", de José de Alencar


"Lucíola" narra a história de amor entre Lúcia, uma cortesã (prostituta de luxo que frequentava a corte), e Paulo, um rapaz recém-chegado ao Rio de Janeiro. No romance, os conflitos vivenciados pela protagonista se relacionam às circunstâncias que a tinham levado ao meretrício: o sacrifício da virgindade para livrar a família da morte e, a seguir, a expulsão de casa pelo pai, que a condena pela atitude tomada. Assim, Maria da Glória, o verdadeiro nome da protagonista, sem ter meios para sobreviver, entrega-se à vida de cortesã e passa a viver à margem da sociedade. A redenção da protagonista se dá por meio do amor que vive com Paulo, que resgata na cortesã Lúcia a pureza da menina Maria da Glória.

Leia, a seguir, um trecho do 15º capítulo de Lucíola:

XV

Decorreram vinte dias.

Chegando uma tarde vi Lúcia assustar-se e esconder sob as amplas dobras do vestido um objeto que me pareceu um livro.
- Estavas lendo?

Ela perturbou-se.

- Não, estava esperando-o.

- Quero ver que livro era.

Meio à força e meio rindo consegui tomar o livro depois de uma fraca resistência. Ela ficou enfadada.

Era um livro muito conhecido - A Dama das Camélias. Ergui os olhos para Lúcia interrogando a expressão de seu rosto. Muitas vezes lê-se não por hábito e distração, mas pela influência de uma simpatia moral que nos faz procurar um confidente de nossos sentimentos, até nas páginas mudas de um escritor. Lúcia teria, como Margarida, a aspiração vaga para o amor? Sonharia com as afeições puras do coração?

Ela tornou-se de lacre sentindo o peso de meu olhar.

- Esse livro é uma mentira!

- Uma poética exageração, mas uma mentira, não! Julgas impossível que uma mulher como Margarida ame?

- Talvez; porém nunca desta maneira! disse indicando o livro.

- De que maneira?

- Dando-lhe o mesmo corpo que tantos outros tiveram. Que diferença haveria então entre o amor e o vício? Essa moça não sentia, quando se lançava nos braços de seu amante, que eram os sobejos da corrupção que lhe oferecia? Não temia que seus lábios naquele momento latejassem ainda com os beijos vendidos?

- O amor purifica e dá sempre um novo encanto ao prazer. Há mulheres que amam toda a vida; e o seu coração, em vez de gastar-se e envelhecer, remoça como a natureza quando volta a primavera.

- Se elas uma só vez tivessem a desgraça de se desprezar a si próprias no momento em que um homem as possuía; se tivessem sentido estancarem-se as fontes da vida com o prazer que lhes arrancavam à força da carne convulsa, nunca mais amariam assim! O amor é inexaurível e remoça, como a primavera; mas não ressuscita o que já morreu.

- Pelo que vejo, Lúcia, nunca amarás em tua vida!

- Eu?... Que ideia! Para que amar? O que há de real e de melhor na vida é o prazer, e esse dispensa o coração. O prazer que se dá e recebe é calmo e doce, sem inquietação e sem receios. [...] O amor!... O amor para uma mulher como eu seria a mais terrível punição que Deus poderia infligir-lhe! Mas o verdadeiro amor d'alma; e não a paixão sensual de Margarida, que nem sequer teve o mérito da fidelidade. Se alguma vez essa mulher se prostituiu mais do que nunca, e se mostrou cortesã depravada, sem brio e sem pudor, foi quando se animou profanar o amor com as torpes carícias que tantos haviam comprado.

Lúcia falou com uma volubilidade nervosa. Às vezes o rosto se tornava sombrio e torvo para esclarecer-se de repente com um raio de indignação, que cintilava na pupila; outras, a sua palavra sentida e apaixonada estacava no meio da vibração, afogando num sorriso de desprezo.
- E houve um homem que aceitasse semelhante amor?

- Ele também a amava; e certamente não pensava como tu.

- Mas é impossível amar uma mulher que se compra, e se tem apenas a desejam! A menos que não se ame por especulação e cálculo para obter-se de graça o que não se pode pagar.

- Seria uma infâmia! Não dês a isto o santo nome do amor.

- E podemos nós ser amadas de outro modo? Como? Arrependendo-nos, e rompendo com o passado? Talvez o primeiro que zombasse da mísera fosse aquele por quem ela desejasse se regenerar. Pensaria que o enganava, para obter por esse meio os benefícios de uma generosidade maior. Quem sabe?... suspeitaria até que ela sonhava com uma união aviltante para a sua honra e para a reputação de sua família. Antes mil vezes esta vida, nua de afeições, em que se paga o desprezo com a indiferença! Antes ter seco e morto o coração do que senti-lo viver para semelhante tortura.

- Está bem: deixemos em paz A Dama das Camélias. Nem tu és Margarida, nem eu sou Armando.

- Oh! juro-lhe que não! Esse juramento teve uma solenidade que me pareceu caricata. Ou porque o percebesse, ou por uma das inexplicáveis transições que lhe eram frequentes, Lúcia soltou uma gargalhada.
[...]

1. Ao ser surpreendida pela chegada de Paulo, Lúcia tenta esconder o livro que tinha em mãos. Considerando o contexto e o boxe 'A dama das camélias", responda: O que tal atitude da personagem revela a respeito dos sentimentos e das intenções dela?

2. Ao longo do diálogo com Paulo, Lúcia faz críticas ao livro e, em especial, à personagem Margarida.
a. O que Lúcia condena em Margarida?

b. O que tal condenação revela quanto à visão que a protagonista tinha do amor? Essa visão corresponde ao ideal de amor do Romantismo? Explique.

3. Paulo e Lúcia discutem sobre o amor. Ele tem a opinião de que o "amor purifica" e rejuvenesce o coração.
a. De acordo com Lúcia, isso seria impossível para ela. Por quê? Justifique sua resposta com elementos do texto.

b. Lúcia afirma que o amor seria "a mais terrível punição que Deus poderia infligirlhe". Por quê?

c. A visão que Lúcia tem de sua condição reforça os valores da sociedade em que ela vive? Justifique sua resposta.

4. Lúcia é uma personagem marcada pelo conflito psicológico.
a. De acordo com as reflexões realizadas anteriormente, que conflito é vivenciado pela protagonista no texto em estudo?

b. O conflito interior vivenciado pela personagem manifesta-se, às vezes, em mudanças bruscas de comportamento. Identifique no texto um trecho que comprove essa afirmação.

c. Considerando o texto em estudo e o boxe "A evolução e a classificação das personagens", conclua: Lúcia é uma personagem plana ou redonda? Justifique sua resposta.

5. Como informa José de Alencar no prólogo do livro, lucíola é um vaga-lume que brilha intensamente na escuridão à beira dos pântanos. De acordo com essa sugestão de sentido oferecida para o título do livro e as reflexões realizadas ao longo deste estudo, levante hipóteses: Como essa imagem do inseto lucíola pode ser associada a Lúcia, a heroína da obra?


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

Atividade sobre prosa do Romantismo a partir de "Memórias de um Sargento de Milícias"


Leia, a seguir, um trecho do terceiro capítulo de "Memórias de um Sargento de Milícias", do escritor do Romantismo Manuel Antônio de Almeida, no qual é narrada a chegada de Leonardo à casa de seu padrinho logo depois de ter sido abandonado pelos pais.

Despedida às travessuras

O Leonardo abandonara de uma vez para sempre a casa fatal onde tinha sofrido tamanha infelicidade; [...]

O pequeno, enquanto se achou novato em casa do padrinho, portou-se com toda a sisudez e gravidade; apenas porém foi tomando mais familiaridade, começou a pôr as manguinhas de fora.

Apesar disto porém captou do padrinho maior afeição, que se foi aumentando de dia em dia, e que em breve chegou ao extremo da amizade cega e apaixonada. Até nas próprias travessuras do menino, as mais das vezes malignas, achava o bom do homem muita graça; não havia para ele em todo o bairro rapazinho mais bonito, e não se fartava de contar à vizinhança tudo o que ele dizia e fazia; às vezes eram verdadeiras ações de menino malcriado, que ele achava cheio de espírito e de viveza; outras vezes eram ditos que denotavam já muita velhacaria para aquela idade, e que ele julgava os mais ingênuos do mundo.

Era isto natural em um homem de uma vida como a sua; tinha já 50 e tantos anos, nunca tinha tido afeições; passara sempre só, isolado; era verdadeiro partidário do mais decidido celibato. Assim à primeira afeição que fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada cegueira. Este, aproveitando-se da imunidade em que se achava por tal motivo, fazia tudo quanto lhe vinha à cabeça.

Umas vezes sentado na loja divertia-se em fazer caretas aos fregueses quando estes se estavam barbeando. Uns enfureciam-se, outros riam sem querer; do que resultava que saíam muitas vezes com a cara cortada, com grande prazer do menino e descrédito do padrinho. Outras vezes escondia em algum canto a mais afiada navalha do padrinho, e o freguês levava por muito tempo com a cara cheia de sabão mordendo-se de impaciência enquanto este a procurava; ele ria-se furtiva e malignamente. Não parava em casa coisa alguma por muito tempo inteira; fazia andar tudo numa poeira; pelos quintais atirava pedras aos telhados dos vizinhos; sentado à porta da rua, entendia com quem passava e com quem estava pelas janelas, de maneira que ninguém por ali gostava dele. O padrinho porém não se dava disto, e continuava a querer-lhe sempre muito bem. Gastava às vezes as noites em fazer castelos no ar a seu respeito; sonhava-lhe uma grande fortuna e uma elevada posição, e tratava de estudar os meios que o levassem a esse fim. Eis aqui pouco mais ou menos o fio dos seus raciocínios. Pelo ofício do pai... (pensava ele) ganha-se, é verdade, dinheiro quando se tem jeito, porém sempre se há de dizer: - ora, é um meirinho!... Nada... por este lado não... Pelo meu ofício... verdade é que eu arranjei-me (há neste arranjei-me uma história que havemos de contar), porém não o quero fazer escravo dos quatro vinténs dos fregueses... Seria talvez bom mandá-lo ao estudo... porém para que diabo serve o estudo? Verdade é que ele parece ter boa memória, e eu podia mais para diante mandá-lo a Coimbra... Sim, é verdade... eu tenho aquelas patacas; estou já velho, não tenho filhos nem outros parentes... mas também que diabo se fará ele em Coimbra? licenciado não: é mau ofício; letrado? era bom... sim, letrado... mas não; não, tenho zanga a quem me lida com papéis e demandas... Clérigo?... um senhor clérigo é muito bom... é uma coisa muito séria... ganha-se muito... pode vir um dia a ser cura. Está dito, há de ser clérigo... ora, se há de ser: hei de ter ainda o gostinho de o ver dizer missa... de o ver pregar na Sé, e então hei de mostrar a toda esta gentalha aqui da vizinhança que não gosta dele que eu tinha muita razão em lhe querer bem. Ele está ainda muito pequeno, mas vou tratar de o ir desasnando aqui mesmo em casa, e quando tiver 12 ou 14 anos há de me entrar para a escola.

Tendo ruminado por muito tempo esta ideia, um dia de manhã chamou o pequeno e disse-lhe:

- Menino, venha cá, você está ficando um homem (tinha ele 9 anos); é preciso que aprenda alguma coisa para vir um dia a ser gente; de segunda-feira em diante (estava em quarta-feira) começarei a ensinar-lhe o b-a, ba. Farte-se de travessuras por este resto da semana.
O menino ouviu este discurso com um ar meio admirado, meio desgostoso, e respondeu:

- Então eu não hei de ir mais ao quintal, nem hei de brincar na porta?

- Aos domingos, quando voltarmos da missa...

- Ora, eu não gosto da missa.

O padrinho não gostou da resposta; não era bom anúncio para quem se destinava a ser padre; mas nem por isso perdeu as esperanças.
[...]

1. A obra de Manuel Antônio de Almeida retrata o cotidiano de determinada classe social do Rio de Janeiro na primeira metade do século XIX. De acordo com o trecho em estudo, qual é essa classe social? Justifique sua resposta.

2. No capítulo, são descritas algumas características de Leonardo quando garoto.
a. A caracterização do protagonista se afasta da visão idealizada que os românticos tinham da infância. Explique essa afirmação com elementos do texto.

b. Tanto na infância quanto na vida adulta, o protagonista é, com frequência, alvo de contrariedades e antipatias e também de simpatias e favores. De que modo isso se apresenta no texto em estudo?

c. Leonardo é considerado pela crítica o primeiro grande malandro da literatura brasileira. Tendo em vista essa informação e as respostas anteriores, conclua: Que elementos do texto já apontam para o perfil de malandro do protagonista?

3. O barbeiro faz planos para o futuro de Leonardo.
a. O pai de Leonardo era meirinho. Por que o barbeiro rejeita a possibilidade de Leonardo seguir essa profissão?

b. A realização pessoal no trabalho era um ideal liberal-burguês presente nos romances românticos europeus. Os planos do barbeiro para seu afilhado se orientam por esse ideal? Justifique sua resposta com elementos do texto.

c. Entre as alternativas de futura ocupação que imagina para seu afilhado, o barbeiro se decide pela de clérigo. Que efeito de sentido essa decisão constrói no texto em estudo?

4. Leia o trecho a seguir, também do terceiro capítulo da obra.

"O menino, como já dissemos, estremecera de prazer ao ver aproximar-se a procissão. Desceu sorrateiramente a soleira, e sem ser visto pelo padrinho colocou-se unido à parede entre as duas portas da loja, levantando-se na ponta dos pés para ver mais ao seu gosto."

No trecho, há uma intrusão do narrador na narrativa.

a. De que modo se dá essa intrusão? Justifique sua resposta com elementos do texto.

b. Que efeito de sentido resulta desse recurso?

5. Releia estes trechos:

- "O pequeno [...] apenas porém foi tomando mais familiaridade, começou a pôr as manguinhas de fora."
- "sentado à porta da rua, entendia com quem passava e com quem estava pelas janelas"
- "O menino ouviu este discurso com um ar meio admirado, meio desgostoso"

a. Em Memórias de um sargento de milícias, a linguagem se caracteriza por um estilo espontâneo, associado a registros informais. Qual trecho evidencia tal característica? Justifique sua resposta.

b. No segundo trecho, qual sentido a expressão entendia com quem passava adquire, no contexto em que está inserida?


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Atividade sobre Romantismo a partir de um trecho de "Inocência", de Visconde de Taunay



Você vai ler, a seguir, um trecho de "Inocência", romance de Visconde de Taunay. Nesse trecho, Pereira apresenta o alemão Meyer à sua filha Inocência, que está acamada em decorrência da malária.

Capítulo XII

A Apresentação
[...]
Chegou-se o pai juntamente com Meyer e, tomando as mãos da filha, perguntou-lhe com voz meiga e inquieta:

- Sente-se pior, meu benzinho?

- Nhor-não, respondeu ela.

- Pois então!... É preciso não entregar o corpo à moleza... Abra os olhos... Olhe... está aqui este homem (e apontou para Meyer) que é alemão e trouxe uma carta do tio de mecê, o Chico, lá da Mata do Rio.

Quero mostrar que, para mim, vale tanto como se fosse esse próprio parente a nós chegado. Por isso é que venho apresentá-lo...

Ela nada articulou.

- Vamos, diga... Tenho muito gosto em lhe conhecer... diga.

Com vagar e acanhamento, repetiu Inocência estas palavras, ao passo que Meyer lhe estendia a mão direita, larga como uma barbatana de cetáceo, e franca como o seu coração.

- Gosto, muito gosto tenho eu, disse ele com três ou quatro sonoros arrancos de garganta. Só o que sinto é vê-la doente... Mas o doutor não nos deixará ficar mal; não é... Sr. Cirino?...

E apoiou esta pergunta com um hem? que ecoou por toda a sala.

- A senhora, respondeu o interpelado, precisaria tomar por alguns dias um pouco de bom vinho do Porto, em que se pusesse casca de quina do campo... Mas, onde achar agora vinho? Só na Vila de Sant'Ana...

- Vinho? perguntou Meyer.

- Sim.

- Vinho do Porto?

- Melhor ainda.

- Pois tudo se arranja, na minha canastra tenho uma garrafa do mais superfino e com a maior satisfação a ofereço à filha do meu pom amigo o Sr. Pereira.

- Oh! Sr. Meyer, agradeceu este com efusão, não sabe quanto lhe fico...

- Qual! não tem obrigação, não, senhor. Além do mais, sua filha é muito bonita, muito bonita, e parece boa deveras... Há de ter umas cores tão lindas, que eu daria tudo para vê-la com saúde...

Que moça!... Muito bela!

Estas palavras que o inocente saxônio pronunciara ex abundantia cordis produziram extraordinário abalo nas pessoas que as ouviram.

Tornou-se Pereira pálido, franzindo os sobrolhos e olhando de esguelha para quem tão imprudentemente elogiava assim, cara a cara, a beleza de sua filha; Inocência enrubesceu que nem uma romã; Cirino sentiu um movimento impetuoso, misturado de estranheza e desespero [...].

Nem reparou Meyer e com a habitual ingenuidade prosseguiu:

- Aqui, no sertão do Brasil, há o mau costume de esconder as mulheres. Viajante não sabe de todo se são bonitas, se feias, e nada pode contar nos livros para o conhecimento dos que leem. Mas, palavra de honra, Sr. Pereira, se todas se parecem com esta sua filha, é coisa muito e muito digna de ser vista e escrita! Eu...

- O Sr. não quer retirar-se? interrompeu Pereira com modo áspero.

- Pois não! replicou o alemão.

E como despedida acrescentou, dirigindo-se para Inocência:

- Chamo-me Guilherme Tembel Meyer, seu humilde criado, e estimo muito conhecê-la por ser a senhora filha de um amigo meu e prender a gente com o seu lindo rosto...

Estendeu então a mão, fez um movimento de cabeça, e acompanhou ao mineiro que já ia saindo, branco de cólera concentrada.

- E que me diz o Sr. deste homem? perguntou a Cirino a meia voz e puxando-o de parte.

- Reparei muito nos seus modos, respondeu-lhe o outro no mesmo tom.

- Nem sei como me contenha... Estou cego de raiva...

1. A fim de fazer um registro cultural e de tornar o texto verossímil ao leitor, o autor emprega as variedades linguísticas faladas pelo sertanejo e pelo estrangeiro.
a. No texto, o itálico destaca desvios em relação à norma-padrão, como os que ocorrem nas seguintes expressões, pronunciadas, respectivamente, por Pereira e pelo alemão: "gosto em lhe conhecer", "uma garrafa do mais superfino". Explique esses desvios e reescreva as expressões em conformidade com a norma-padrão.

b. No terceiro e quarto parágrafos, há o registro de expressões regionais. Quais são elas?

2. Na cena de apresentação do alemão à jovem Inocência, o comportamento das personagens expressa diferentes hábitos sociais, valores e visões de mundo.
a. Por que o comportamento do alemão pareceu ofensivo ao sertanejo Pereira?

b. Qual é a crítica que Meyer faz ao tratamento dado às mulheres no sertão do Brasil?

c. Levante hipóteses: O comportamento de Inocência diante do alemão confirma o costume sertanejo de esconder as mulheres?

d. Meyer, um naturalista europeu, se opõe diretamente a Pereira, um homem rústico que vive no meio rural. Tendo em vista as visões de mundo de um e de outro, conclua: O que a visão de cada um deles a respeito das mulheres revela?

3. Qual é o foco narrativo no texto em estudo? Comprove sua resposta com elementos do texto.


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

Atividade sobre Romantismo a partir de um trecho de "Iracema", de José de Alencar



Leia, a seguir, um capítulo do romance "Iracema", de José de Alencar.

XXVIII

Uma vez o cristão ouviu dentro em sua alma o soluço de Iracema: seus olhos buscaram em torno e não a viram.
A filha de Araquém estava além, entre as verdes moitas de ubaia, sentada na relva. O pranto desfiava de seu belo semblante; e as gotas que rolavam a uma e uma caíam sobre o regaço, onde já palpitava e crescia o filho do amor. Assim caem as folhas da árvore viçosa antes que amadureça o fruto.

- O que espreme as lágrimas do coração de Iracema?

- Chora o cajueiro quando fica tronco seco e triste. Iracema perdeu sua felicidade, depois que te separaste dela.

- Não estou eu junto de ti?

- Teu corpo está aqui; mas tua alma voa à terra de teus pais, e busca a virgem branca, que te espera.

Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara nele o tinham ferido no íntimo.

- O guerreiro branco é teu esposo; ele te pertence.

Sorriu em sua tristeza a formosa tabajara:

- Quanto tempo há que retiraste de Iracema teu espírito? Dantes, teu passo te guiava para as frescas serras e alegres tabuleiros: teu pé gostava de pisar a terra da felicidade, e seguir o rasto da esposa. Agora só buscas as praias ardentes, porque o mar que lá murmura vem dos campos em que nasceste; e o morro das areias, porque do alto se avista a igara que passa.

- É a ânsia de combater o tupinambá que volve o passo do guerreiro para as bordas do mar, respondeu o cristão.

Iracema continuou:

- Teu lábio secou para a esposa; assim a cana, quando ardem os grandes sóis, perde o mel, e as folhas murchas não podem mais cantar quando passa a brisa. Agora só falas ao vento da praia para que ele leve tua voz à cabana de teus pais.

- A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para defender a cabana de Iracema e a terra de seu filho, quando o inimigo vier.

A esposa meneou a cabeça:

- Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna, mas tua alma se abre para o grito do japim, porque ele tem as penas douradas como os cabelos daquela que tu amas!

- A tristeza escurece a vista de Iracema, e amarga seu lábio. Mas a alegria há de voltar à alma da esposa, como volta à árvore a verde rama.

- Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como o abati depois que deu seu fruto. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra estrangeira.

- Tua voz queima, filha de Araquém, como o sopro que vem dos sertões do Icó, no tempo dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo?

- Não veem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vai subindo às nuvens? A seus pés ainda está a seca raiz da murta frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer tão alto. Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; deve cair, para que a alegria alumie teu seio.

O cristão cingiu o talhe da formosa índia e a estreitou ao peito. Seu lábio pousou no lábio da esposa um beijo, mas áspero e morno.

1. Leia o boxe "Uma literatura nacional" e o seguinte trecho do texto.

"O pranto desfiava de seu belo semblante; e as gotas que rolavam a uma e uma caíam sobre o regaço, onde já palpitava e crescia o filho do amor. Assim caem as folhas da árvore viçosa antes que amadureça o fruto.
- O que espreme as lágrimas do coração de Iracema?
- Chora o cajueiro quando fica tronco seco e triste. Iracema perdeu sua felicidade, depois que te separaste dela."

a. No trecho, há o emprego de comparação nas falas do narrador e de Iracema. Quais são os elementos comparados?

b. Que emprego pouco comum quanto à pessoa gramatical se observa na fala de Iracema? Justifique sua resposta com elementos do texto.

c. Considerando-se o projeto de construção de uma literatura nacional imaginado por Alencar, que efeito de sentido o emprego de comparação e de construção pouco comum quanto à pessoa gramatical produz no texto?

2. Iracema é uma prosa poética, ou seja, é um texto narrativo que emprega recursos estilísticos típicos da poesia, como a aliteração e a rima. Identifique no texto em estudo um exemplo de cada um desses recursos.

3. Leia o boxe "O conflito na narrativa de ficção" e, depois, responda:
a. No capítulo de Iracema em estudo, o que dá início ao conflito?

b. O conflito é construído com base em determinados argumentos utilizados por Iracema. Quais são eles?

c. A reação de Martim aos argumentos de Iracema corresponde aos sentimentos mais íntimos dele? Comprove sua resposta com uma pista dada pelo narrador.

4. Leia o boxe "Foco narrativo" e, depois, responda: No texto em estudo, qual é o ponto de vista empregado? Justifique sua resposta com elementos do texto.

5. Uma interpretação possível de Iracema é a de que a lenda criada por Alencar representa o fim da cultura nativa no Brasil, ocorrido com a chegada do colonizador, e o surgimento de uma nova cultura, a brasileira, formada pela união das etnias indígena e portuguesa. De que modo essa ideia é sugerida no capítulo em estudo?

6. O filho que Iracema dá à luz recebe o nome Moacir, que, em tupi, significa "o que vem da dor".
a. De acordo com o texto lido, de que modo o nome Moacir traduz o sentimento de Iracema em relação a Martim?

b. De que modo o nome Moacir se relaciona, por seu significado, com o surgimento da civilização brasileira?

7. Um anagrama é uma transposição de letras de uma palavra que possibilita formar outra palavra. Iracema, o nome da obra de Alencar de que faz parte o texto em estudo, é anagrama da palavra América. Com base nessa informação e nas reflexões realizadas ao longo do estudo, conclua: Como a obra Iracema se relaciona com o projeto de construção de uma identidade nacional defendido por Alencar?


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

Atividade sobre Romantismo a partir de um poema lírico de Castro Alves



Lady Lilith (1868), de Dante Gabriel Charles Rossetti

Leia, agora, um poema lírico de Castro Alves:

O "adeus" de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus".

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos... sécúlos de delírio...
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
...Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse - "Voltarei!... descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

1. A poesia lírica de Castro Alves também apresenta imagens de grande efeito. Nos três primeiros versos, identifique e explique a figura de linguagem que constrói uma imagem de efeito na abertura do poema.

2. No poema, o eu lírico descreve o seu relacionamento amoroso com Teresa.
a. Como se caracteriza esse relacionamento?

b. Em que o último encontro do eu lírico com Teresa se diferencia dos anteriores? Justifique sua resposta com elementos do texto.

c. Nesse último encontro, qual é a reação de Teresa ao ver o eu lírico? Que motivos possíveis a levaram a reagir dessa maneira?

3. Releia estes versos:
a. Que diferença você nota entre eles?

b. Como você interpreta o último verso do poema?

c. O título do poema é "O 'adeus' de Teresa". Por que o título está no singular? A qual "adeus" ele se refere?

4. O poema "O 'adeus' de Teresa" é um exemplo da evolução da poesia lírica ao longo do Romantismo.
a. Diferentemente dos poetas das gerações anteriores, Castro Alves retrata a mulher em um espaço determinado. No poema em estudo, em que espaço Teresa é situada? Justifique sua resposta com elementos do texto.

b. Castro Alves reúne no retrato feminino os planos espiritual e físico do amor. Identifique no poema em estudo palavras e expressões que se referem a esses dois planos.

c. Na poesia de Castro Alves, o retrato da mulher e do amor apresenta diferenças em relação ao que era feito na poesia das gerações anteriores. Com base nas reflexões realizadas ao longo deste estudo, conclua: Em que consiste essa diferença?


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Atividade sobre Romantismo a partir de trechos do poema "O Navio Negreiro", de Castro Alves



Você vai ler, a seguir, um trecho da 5ª parte de "O navio negreiro - Tragédia no mar", um dos poemas da obra Os escravos, de Castro Alves. Nesse poema, publicado pela primeira vez em 1868, o poeta retrata o transporte de negros escravos ao Brasil, prática comercial proibida em 1850, com a Lei Eusébio de Queirós.

V
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar! por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borão?...
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados,
Que não encontram em vós,
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?... Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz,
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão...
Homens simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos
Sem luz, sem ar, sem razão...

São mulheres desgraçadas
Como Agar o foi também,
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma - lágrimas de fel.
Como Agar sofrendo tanto
Que nem o leite do pranto
Têm que dar para Ismael...
[...]

Ontem a Serra Leoa
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão...
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade
Nem são livres p'ra... morrer...
Prende-os a mesma corrente
- Férrea, lúgubre serpente -
Nas roscas da escravidão,
E assim roubados à morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoite... Irrisão!...

1. O eu lírico de um poema pode-se dirigir a alguém ou a algo que esteja presente ou ausente, que seja animado ou inanimado, concreto ou abstrato, para exprimir lamentos, pedidos, censuras. Esse recurso retórico é uma figura de linguagem, chamada apóstrofe.
a. Identifique as apóstrofes empregadas nas duas primeiras estrofes do poema.

b. Nessas duas estrofes, que pedidos o eu lírico faz aos seus interlocutores?

c. Que efeito o emprego das apóstrofes produz no texto?

2. A partir da terceira estrofe, há uma mudança de voz no poema.
a. De quem é essa voz?

b. Que informações essa nova voz introduz no poema? Justifique sua resposta com elementos do texto.

3. Na terceira estrofe, há o retrato dos escravos negros.
a. Nessa estrofe, o poeta associa a ideia de liberdade a imagens que evocam luminosidade e movimento. Que palavras ou expressões sugerem luminosidade? Quais sugerem movimento?

b. No último verso dessa estrofe, o poeta emprega uma gradação. Que efeito de sentido o uso dessa figura de linguagem produz no texto?

c. Nessa gradação, aparece a expressão sem razão. De acordo com o contexto, que sentidos podem ser atribuídos a essa expressão?

4. Na quarta estrofe, o poeta emprega, para retratar a figura da escrava negra, simultaneamente, uma comparação e uma hipérbole.
a. Identifique e explique tais figuras de linguagem nessa estrofe.

b. Que efeito de sentido a hipérbole produz no texto?

5. Para retratar o navio negreiro, o poeta cria também imagens que associam, simultaneamente, movimento e sonoridade.
a. Identifique na quinta estrofe palavras ou expressões que representam tais imagens.

b. O que a "dança", na sexta estrofe, representa?

c. Quem são os autores da "irrisão"? Explique.

6. O poeta produziu esse poema em um momento em que não havia mais o tráfico negreiro, mas a escravidão ainda vigorava. Com base no estudo realizado, conclua: Que estratégias o poeta utiliza para convencer seu ouvinte/leitor de que a escravidão devia ser extinta?


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

Atividade sobre Romantismo comparando versos de Casimiro de Abreu com Chico Buarque



Você vai ler, a seguir, dois textos. O primeiro, escrito em 1857, é o poema "Meus oito anos", do poeta Casimiro de Abreu, da segunda geração romântica. O segundo é a letra da canção "Doze anos", do compositor e escritor Chico Buarque, criada para integrar a peça Ópera do Malandro, comédia musical de 1978.

Texto 1 - Meus oito anos

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é - lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!
[...]

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
[...]

Texto 2 - Doze anos

Ai, que saudades que eu tenho
Dos meus doze anos
Que saudade ingrata
Dar banda por aí
Fazendo grandes planos
E chutando lata
Trocando figurinha
Matando passarinho
Colecionando minhoca
[...]

Ai, que saudades que eu tenho
Duma travessura
O futebol de rua
Sair pulando muro
Olhando fechadura
E vendo mulher nua
Comendo fruta no pé
Chupando picolé
Pé de moleque, paçoca
[...]

1. Na letra da canção "Doze anos", Chico Buarque dialoga com o poema "Meus oito anos", de Casimiro de Abreu. Qual é o tema de cada um dos textos?
Resposta: Cada um dos textos tem como tema a saudade de uma fase da vida: a infância, no de Casimiro de Abreu; a pré-adolescência, no de Chico Buarque.

2. No texto 1, o poeta romântico se refere a determinadas experiências vivenciadas no período da infância.
a. De acordo com esse texto, as brincadeiras do eu lírico na infância envolviam travessuras? Justifique sua resposta.
Resposta: O eu lírico não sugere brincadeiras do tipo travessuras e dá a impressão de que seus divertimentos envolviam sempre elementos naturais, como ficar à sombra de bananeiras e laranjais, correr atrás das borboletas pelas campinas, colher pitangas e mangas e brincar na beira do mar.

b. De que tipo era a relação do eu lírico com os elementos da natureza? Justifique sua resposta com elementos do texto.
Resposta: Era uma relação harmoniosa e afetiva; além de os elementos da natureza serem uma referência para as brincadeiras que fazia e uma fonte de contemplação ("Achava o céu sempre lindo"), o eu lírico se sentia parte da natureza ("Filho das montanhas").

3. Releia estes versos:

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;

a. De acordo com esses versos, como o eu lírico, na vida adulta, vê a sua infância?
Resposta: O eu lírico vê sua infância como uma fase de pureza e ingenuidade.

b. Essa visão do eu lírico é objetiva ou é subjetiva e idealizada? Justifique sua resposta com elementos do poema.
Resposta: É subjetiva e idealizada, pois o eu lírico vê de um modo pessoal e sentimental suas experiências da infância ("A vida - um hino d'amor") e tudo nessa fase da vida lhe parecia perfeito: seu mundo era "um sonho dourado" e sua vida era feita de "amor", "sonho" e "flores".

4. Na letra da canção "Meus doze anos", Chico Buarque parodia o poema "Meus oito anos", isto é, ao dialogar com o texto de Casimiro de Abreu, apresenta ideias diferentes da do autor romântico, provocando humor.
a. De acordo com a primeira estrofe, a relação do eu lírico com os elementos da natureza é semelhante à que tem o eu lírico do texto romântico? Por quê?
Resposta: Não; a relação do eu lírico com os elementos da natureza não é harmônica nem afetiva, pois ele mata passarinho e coleciona minhoca.

b. Nesse texto, o eu lírico da canção, tal qual o do poema de Casimiro de Abreu, valoriza a pureza e a ingenuidade? Justifique sua resposta.
Resposta: Não; o eu lírico pula muro, olha mulher nua pelo buraco da fechadura.

c. Considerando as reflexões que você fez ao longo do estudo comparado dos textos 1 e 2, responda: Quais são as principais diferenças entre os dois textos? Justifique sua resposta.
Resposta: Enquanto o poema de Casimiro de Abreu valoriza a inocência da criança e a relação dela com a natureza, apresentando uma visão idealizada e sentimentalista da infância, a canção de Chico Buarque retrata de modo realista e sem afetações sentimentais as malícias (espiar mulher nua), certas maldades ("Matando passarinho") e as brincadeiras de rua vivenciadas na pré-adolescência.


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

Atividade sobre Romantismo a partir do poema "Meu Anjo", de Álvares de Azevedo



Leia, a seguir, um dos poemas de Álvares de Azevedo que compõem a segunda parte da Lira dos vinte anos.

Meu anjo

Meu anjo tem o encanto, a maravilha
Da espontânea canção dos passarinhos;
Tem os seios tão alvos, tão macios
Como o pelo sedoso dos arminhos.

Triste de noite na janela a vejo
E de seus lábios o gemido escuto.
É leve a criatura vaporosa
Como a frouxa fumaça de um charuto.

Parece até que sobre a fronte angélica
Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...
Formosa a vejo assim entre meus sonhos
Mais bela no vapor do meu cachimbo.

Como o vinho espanhol, um beijo dela
Entorna ao sangue a luz do paraíso.
Dá morte num desdém, num beijo vida,
E celestes desmaios num sorriso!

Mas quis a minha sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto,
E que ela fosse leviana e bela
Como a leve fumaça de um charuto!

1. O poema apresenta em sua composição vários elementos antitéticos. Observe o retrato da figura feminina apresentado na primeira estrofe do poema.
a. Que elementos, nessa estrofe, sugerem a pureza e a inocência da mulher amada?

b. Que elementos são indicativos da corporeidade e da sensualidade da mulher amada?

2. A partir da segunda estrofe, o eu lírico passa a associar a figura feminina a elementos mais prosaicos.
a. Quais são esses elementos?

b. O que esses elementos prosaicos têm em comum?

c. Considerando as respostas dos itens anteriores, levante hipóteses: O que essas associações feitas pelo eu lírico sugerem quanto à figura feminina?

3. A imagem da mulher se modifica conforme o eu lírico esteja situado no mundo dos sonhos ou no mundo da realidade. Em que consiste essa mudança? Justifique sua resposta com elementos do texto.

4. No poema:
a. A mulher amada retribui o amor do eu lírico? Justifique sua resposta com trechos do texto.
Não; ela não sente amor algum por ele ("Mas quis a minha sina que seu peito / Não batesse por mim nem um minuto").

b. Que sentimentos o eu lírico expressa diante da postura de sua amada?

5. Como vimos, na Lira dos vinte anos a mulher é retratada de maneiras diferentes na primeira e na segunda parte da obra. Considerando o poema em estudo e o poema "A T...", estudado no capítulo anterior, responda:
a. Nos dois poemas, que características as figuras femininas têm em comum?

b. E quais características diferentes elas têm?


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

Atividade sobre Romantismo a partir de um poema de Gonçalves Dias



Leia este poema lírico de Gonçalves Dias:

Consolação nas lágrimas

Las lágrimas puras que entonces se vierten
Acaso divierten
En vez de doler.
ZORRILLA

Como é belo à meia-noite
O azul do céu transparente,
Quando a esfera d'alva lua
Vagueia mui docemente,
Quando a terra não ruidosa
Toda se cala dormente,
Quando o mar tranquilo e brando
Na areia chora fremente!

Como é belo este silêncio
Da terra todo harmonia,
Que aos céus a mente arrebata
Cheia de meiga poesia!
Como é bela a luz que brilha
Do mar na viva ardentia!
Este pranto como é doce,
Que entorna a melancolia!

Esta aragem como é branda
Que enruga a face do mar,
Que na terra passa e morre
Sem nas folhas sussurrar!
Os sons d'aéreo instrumento
Quisera agora escutar,
Quisera mágoas pungentes
Neste silêncio olvidar!

O azul do céu, nem da lua
A doce luz refletida,
Nem o mar beijando a praia,
Nem a terra adormecida,
Nem meigos sons, nem perfumes,
Nem a brisa mal sentida,
Nem quanto agrada e deleita,
Nem quanto embeleza a vida;

Nada é melhor que este pranto
Em silêncio gotejado,
Meigo e doce, e pouco e pouco
Do coração despegado;
Não soro de fel, mas santo
Frescor em peito chagado;
Não espremido entre dores, 
Mas quase em prazer coado!

1. Enquanto no Classicismo, no Barroco e no Arcadismo destacava-se o gosto pelo soneto, considerado um tipo refinado de composição poética, no Romantismo, conforme você viu no capítulo anterior, os poetas se interessaram pela exploração de diferentes formas poéticas.
a. No poema de Gonçalves Dias, a métrica empregada é típica das cantigas populares. Faça a escansão dos primeiros versos e identifique a métrica utilizada no poema.

b. Como os versos estão organizados nas estrofes?

c. O esquema de rimas empregado no poema foi bastante utilizado pelos românticos. Qual é esse esquema?

d. A métrica, a rima e o ritmo promovem uma musicalidade que se harmoniza com as imagens. O ritmo é construído pela alternância entre sílabas pronunciadas com maior e menor intensidade. Observe as sílabas acentuadas neste verso:

Co/mo é/ be/lo à/ mei/a/-noi/te
                3ª                     7ª 

A métrica empregada no poema permite outras possibilidades de acentuação. Identifique os esquemas rítmicos dos três versos que vêm depois do verso acima.

2. Conforme você viu no capítulo 1, os poetas românticos, sentindo-se oprimidos pela civilização, voltavam-se para a natureza e, além de retratá-la subjetivamente, buscavam interagir com ela. Releia as três primeiras estrofes do poema.
a. De acordo com os seis primeiros versos de cada uma dessas estrofes, quais são as impressões do eu lírico a respeito da natureza que o cerca? Justifique sua resposta com elementos do texto.

b. Nos dois últimos versos de cada uma dessas estrofes, como o eu lírico relaciona os elementos da natureza com seu estado de alma? Justifique sua resposta com elementos do texto.

c. Ao descrever a natureza, o eu lírico emprega de modo recorrente a prosopopeia. Identifique uma situação de emprego dessa figura de linguagem na primeira estrofe e explique o efeito de sentido que ela produz no texto.

3. Na terceira e na quarta estrofes, são exploradas com mais intensidade as impressões sensoriais do eu lírico diante da natureza.
a. Na descrição da aragem, na terceira estrofe, há o emprego da aliteração (repetição de um mesmo fonema consonantal ou de fonemas consonantais de som aproximado). Que efeito de sentido o emprego da aliteração provoca nessa estrofe?

b. Na quarta estrofe, o eu lírico retrata a interação com vários elementos da natureza. Dos cinco sentidos, quais o eu lírico utiliza diante desse cenário natural? Justifique sua resposta com elementos do texto.

4. Na última estrofe, o eu lírico retrata seu mundo interior.
a. De acordo com essa estrofe, como o eu lírico se sente? Justifique sua resposta com elementos do texto.

b. Para o eu lírico, o pranto é uma manifestação de sofrimento? Justifique sua resposta com elementos do texto.

c. No estado emocional em que se encontra, o eu lírico é confortado pela natureza? Justifique sua resposta com elementos do texto.

5. Gonçalves Dias utilizou como epígrafe de seu poema alguns versos do poeta romântico espanhol José Zorrilla. A epígrafe é uma frase ou uma pequena citação que pode servir como apoio temático a um texto. De que modo o poema "Consolação nas lágrimas" se relaciona à epigrafe?


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

domingo, 6 de junho de 2021

Atividade sobre Romantismo a partir de um poema de Álvares de Azevedo



Leia o seguinte poema de Álvares de Azevedo.

A T...
No amor basta uma noite para fazer de um homem um Deus.
                                                                                                      Propércio

Amoroso palor meu rosto inunda,
Mórbida languidez me banha os olhos,
Ardem sem sono as pálpebras doridas,
Convulsivo tremor meu corpo vibra:
Quanto sofro por ti! Nas longas noites
Adoeço de amor e de desejos
E nos meus sonhos desmaiando passa.
A imagem voluptuosa da ventura...
Eu sinto-a de paixão encher a brisa,
Embalsamar a noite e o céu sem nuvens,
E ela mesma suave descorando
Os alvacentos véus soltar do colo,
Cheirosas flores desparzir sorrindo
Da mágica cintura.
Sinto na fronte pétalas de flores,
Sinto-as nos lábios e de amor suspiro.
Mas flores e perfumes embriagam,
E no fogo da febre, e em meu delírio
Embebem na minh'alma enamorada
Delicioso veneno.
[...]

Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh'alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tu'alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as virações do paraíso;
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tu'alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!

1. Na poesia do Romantismo, diferentemente do que se observa na estética árcade, o emprego dos elementos formais (métrica, rimas, ritmo, imagens, elementos estilísticos) tem relação com o estado emocional do poeta, e não com regras meramente convencionais.
a. Faça a escansão dos primeiros versos do poema de Álvares de Azevedo e responda: Há regularidade métrica nesse poema? Justifique sua resposta.

b. Como as estrofes estão organizadas quanto ao número de versos?

c. Há um esquema de rimas no poema?

2. Um dos procedimentos habituais dos poetas românticos é a introspecção, ou seja, a exploração do mundo interior; por isso, muitas das produções românticas são marcadas pelo subjetivismo, pelo sentimentalismo e pelo egocentrismo.
a. Nos primeiros versos do poema de Álvares de Azevedo, o eu lírico descreve seu estado físico. Como é esse estado?

b. O que leva o eu lírico a ter essas sensações? Justifique sua resposta com elementos do texto.

c. Ao voltar-se para seu mundo interior, o eu lírico mergulha em um estado de sonho e devaneio. De acordo com a primeira estrofe, o que esse estado propicia ao eu lírico? Justifique sua resposta com elementos do texto.

3. A figura feminina foi abordada nos textos românticos de variadas formas. Identifique no poema em estudo dois trechos em que a mulher é retratada como:
a. pura e inocente;

b. identificada com os elementos da natureza;

c. capaz de colocar o eu lírico em contato com o divino e com a suprema felicidade.

4. O amor é um tema muito explorado no Romantismo. Entre os itens a seguir, indique em seu caderno o que não corresponde à concepção de amor observada no poema.

I. A predominância de elementos diáfanos e leves, como a noite embalsamada, a brisa, os "alvacentos véus" e a imagem pura e incorpórea da amada, expressa uma ideia de amor sublime, não realizado fisicamente.
II. O sentimento amoroso relaciona-se à ideia de transcendência e, por isso, a morte é algo desejável: ao morrer, o eu lírico pode perder sua natureza física e material e adquirir, como a imagem da mulher amada, uma essência espiritual.
III. A sensualidade da mulher, expressa no verso "A imagem voluptuosa da ventura...", e o desejo ardente do eu lírico ("no fogo da febre", "Delicioso veneno") sugerem um amor erótico, corpóreo e possível de se realizar concretamente.


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

Atividade sobre Romantismo a partir do poema "I Juca-Pirama", de Gonçalves Dias



Você vai ler, a seguir, dois trechos do poema épico "I-Juca-Pirama" (em tupi, "O que há de ser morto"), de Gonçalves Dias.
No poema, o último descendente da tribo tupi é feito prisioneiro pelos timbiras e é dado início ao ritual antropofágico. O guerreiro, antes de receber o golpe fatal, inicia seu canto de morte, no qual narra toda a sua bravura e revela que tem um pai cego e doente e pede para ser libertado a fim de cuidar dele. O cacique timbira lhe concede a liberdade, e o guerreiro promete voltar logo após a morte do pai. Quando parte e encontra o pai, o ancião percebe, pelo cheiro das tintas, que o filho fora preso para o sacrifício e decide levá-lo até os timbiras para que o ritual antropofágico fosse cumprido.

VIII
"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos chorasse?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.

"Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz.
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!
[...]

"Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d'argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."

IX
Isto dizendo, o miserando velho
A quem Tupã tamanha dor, tal fado
Já nos confins da vida reservara,
Vai com trêmulo pé, com as mãos já frias
Da sua noite escura as densas trevas
Palpando. - Alarma! alarma! - O velho para
O grito que escutou é a voz do filho,
Voz de guerra que ouviu já tantas vezes
Noutra quadra melhor. - Alarma! alarma!
- Esse momento só vale apagar-lhe
Os tão compridos transes, as angústias,
Que o frio coração lhe atormentaram
De guerreiro e de pai: - vale, e de sobra.
Ele que em tanta dor se contivera,
Tomado pelo súbito contraste,
Desfaz-se agora em pranto copioso,
Que o exaurido coração remoça.

A taba se alborota, os golpes descem,
Gritos, imprecações profundas soam,
Emaranhada a multidão braveja,
Revolve-se, enovela-se confusa,
E mais revolta em mor furor se acende.
E os sons dos golpes que incessantes fervem.
Vozes, gemidos, estertor de morte
Vão longe pelas ermas serranias
Da humana tempestade propagando
Quantas vagas de povo enfurecido
Contra um rochedo vivo se quebravam.

Era ele, o Tupi; nem fora justo
Que a fama dos Tupis - o nome, a glória,
Aturado labor de tantos anos,
Derradeiro brasão da raça extinta,
De um jacto e por um só se aniquilasse.
- Basta! clama o chefe dos Timbiras,
- Basta, guerreiro ilustre! assaz lutaste,
E para o sacrifício é mister forças. -

O guerreiro parou, caiu nos braços
Do velho pai, que o cinge contra o peito,
Com lágrimas de júbilo bradando:
"Este, sim, que é meu filho muito amado!
"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive,
"Corram livres as lágrimas que choro,
"Estas lágrimas, sim, que não desonram."

1. As estrofes do canto VIII descrevem a reação do ancião tupi diante de seu filho e da tribo dos timbiras.
a. Qual é essa reação? Justifique sua resposta com elementos do texto.

b. Por que o pai reage dessa forma? Justifique sua resposta com elementos do texto.

2. Em outra parte do poema, no canto IV, no início do ritual antropofágico, o guerreiro tupi canta assim seu canto de morte:

"Então, forasteiro,
Cai prisioneiro
De um troço guerreiro
Com quem me encontrei:
O cru dessossego
Do pai fraco e cego,
Enquanto não chego,
Qual seja, - dizei!

Eu era o seu guia
Na noite sombria,
A só alegria
Que Deus lhe deixou:
Em mim se apoiava,
Em mim se firmava,
Em mim descansava,
Que filho lhe sou."

Logo em seguida, ele chora e pede que lhe poupem a vida. De acordo com os versos acima, qual foi o motivo de o guerreiro tupi ter pedido clemência aos timbiras? Justifique sua resposta com elementos do texto.

3. O canto IX retrata a atitude do jovem guerreiro tupi ao ver que o pai não tinha compreendido o motivo de seu retorno.
a. Qual é essa atitude? O que ela revela? Justifique sua resposta com elementos do texto.

b. No final do canto IX, o ancião chora e afirma: "Estas lágrimas, sim, que não desonram". Por que, nesse contexto, tais lágrimas não desonram?

c. Conclua: De acordo com o canto IX, pode-se dizer que o jovem guerreiro será levado ao sacrifício? Justifique sua resposta com elementos do texto.

4. A poesia de Gonçalves Dias expressa um novo ponto de vista a respeito do indígena. Diferentemente de toda a literatura anterior, em que prevalecia a visão que o branco tinha a respeito dos povos nativos, o poeta romântico buscou dar voz ao índio, mostrando-o pela perspectiva dos seus próprios valores e da sua própria cultura. De acordo com o poema em estudo, que valores o indígena associa ao ritual antropofágico?

5. Um dos traços importantes do Romantismo é o nacionalismo e a busca das raízes nacionais. Enquanto na Europa essas raízes foram buscadas na Idade Média, no Brasil, uma nação recém-independente, os primeiros poetas românticos elegeram o índio, a fauna e a flora como elementos fundadores de nossa nacionalidade.
a. No poema de Gonçalves Dias, o herói indígena, como representante de nossas raízes, destaca-se por quais valores e sentimentos?

b. A valorização da figura do índio pelos escritores românticos europeus, por influência de Rousseau, está presente também no Romantismo brasileiro. Identifique no herói do poema "I-Juca-Pirama" elementos relacionados ao mito do bom selvagem.


Fonte: Português Contemporâneo: Diálogo, Reflexão e Uso

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Avaliação sobre Romantismo Brasileiro: Gonçalves Dias e José de Alencar




Leia poesia abaixo de Gonçalves, representante da 1ª Geração do Romantismo no Brasil:

Canção do exílio (Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em  cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar sozinho, à noite
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

# Questões:
1. O texto acima pertence ao estilo de época do:
a) barroco
b) arcadismo
c) romantismo
d) modernismo

2. A distância da terra natal provoca no eu lírico
a) Tristeza                 
b) Desespero  
c) Saudade      
d) Angústia                                 

3. No poema, o eu lírico compara a terra natal com a terra onde está exilado. Que elementos são utilizados nessa comparação?
a) sociais                     
b) naturais                     
c) econômicos                           
d) políticos

4. Ao se referir à terra natal, o eu lírico apresenta uma imagem
a) Realista                 
b) Racional                     
c) Idealizada                               
d) Imparcial

5. Em qual dos versos abaixo apresenta um apelo do eu lírico
a) “Minha terra tem palmeiras”
b) “Que tais não encontro eu cá”
c) “Não permita Deus que eu morra”
d) “Nosso céu tem mais estrelas”

6. Revela-se no poema um tom de
a) lamento         
b) humor                   
c) ironia                   
d) rancor

7. O que significa a palavra "exílio" na poesia "Canção de Exílio"?
a) sofrimento por estar distante de sua terra natal
b) alegria por lembrar das belezas de sua terra natal
c) indiferença por estar conhecendo um novo país
d) lamento por não ter conhecido atrativos num novo país

8. Gonçalves Dias consolidou o romantismo no Brasil. Sua “Canção do exílio” pode ser considerada tipicamente romântica porque
a) apóia-se nos cânones formais da poesia clássica greco-romana; emprega figuras de ornamento, até com certo exagero; evidencia a musicalidade do verso pelo uso de aliterações.
b) exalta a terra natal; é nostálgica e saudosista; o tema é tratado de modo sentimental, emotivo.
c) utiliza-se do verso livre, como ideal de liberdade criativa; sua linguagem é hermética, erudita; glorifica o canto dos pássaros e a vida selvagem.
d) poesia e música se confundem, como artifício simbólico; a natureza e o tema bucólico são tratados com objetividade; usa com parcimônia as formas pronominais de primeira pessoa.

Leia o texto abaixo feito a partir do livro "O Guarani", de José de Alencar:

O guarani foi escrito e publicado na forma de folhetins, em 1857. Cheio de ação e lirismo, divide-se em quatro partes que descrevem uma natureza exuberante, habitada por povos indígenas.

Na primeira parte de O guarani há a descrição do ambiente em que dom Antônio de Mariz, fidalgo português que, nos fins do século XVI – fiel ao projeto colonizador da coroa portuguesa, submetida naquele período ao domínio espanhol —, instala uma fazenda às margens do rio Pequequer.

Sua família era composta de quatro pessoas: a mulher, dona Lauriana, o filho, dom Diogo de Mariz, a filha, dona Cecília (18 anos) e dona Isabel, tida como sobrinha, mas que, de fato, era filha natural e ilegítima de dom Antônio.

A casa-forte de dom Antônio de Mariz, às margens do Pequequer, torna-se abrigo de ilustres portugueses, mas acolhe também, inadvertidamente, bandos de mercenários, como o aventureiro Loredano, ex–padre que assassinara um homem desarmado, para se apossar de um mapa de famosas minas de prata.

Ceci e Peri
Nessa primeira parte já se apresenta também o valente índio Peri, dedicado à Cecília, a quem chama de Ceci. Ela fora atacada em vingança pela morte de uma índia aimoré, causada por Diogo durante uma caçada, e Peri – sempre atento – salva sua amada.
Fonte: coladaweb.com

# Questões:
9. Esse texto é um exemplo de
A) conto.
B) crônica jornalística.
C) resumo
D) resenha.

10. Qual a finalidade desse texto?
a) descrever sobre certo assunto
b) apresentar de forma breve o conteúdo de uma obra
c) expor uma análise de algum tema
d) apresentar diálogos de uma história

11. No trecho "Sua família era composta de quatro pessoas", o pronome "sua" se refere a
a) O Guarani
b) Antônio de Mariz
c) Dona Lauriana
d) Cecília
12. No trecho "mas que, de fato, era filha natural e ilegítima de dom Antônio", a conjunção "mas" expressa ideia de
a) adição
b) conclusão
c) oposição
d) explicação

13. No trecho "inadvertidamente, bandos de mercenários...", a palavra "inadvertidamente" significa
a) sem julgamento
b) sem cuidado
c) com consideração
d) com zelo
14. Qual a linguagem empregada nesse texto
A) formal  
B) informal  
C) coloquial  
D) técnica
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