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terça-feira, 10 de novembro de 2020

Atividade a partir do texto "Felicidade Clandestina", de Clarice Lispector



Leia o texto abaixo, de Clarice Lispector:

Felicidade Clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. [...]

# Questões:
1. No primeiro parágrafo desse texto, predomina
A) descrição.
B) diálogo.
C) dissertação.
D) injunção.

2. Considerando-se a linguagem utilizada nesse texto, conclui-se que a função de linguagem predominante é a
A) apelativa.
B) emotiva ou expressiva.
C) informativa.
D) metalinguística.

3. Esse texto é um fragmento de conto, porque
A) apresenta de modo breve o espaço da narrativa.
B) é estruturado em forma de diálogo.
C) questiona a causa e o efeito dos fatos narrados.
D) recorre à ironia e ao humor.

4. O eu lírico do texto demonstra uma certa inveja com a personagem descrita no primeiro parágrafo. Qual seria o motivo dessa inveja?
A) "Tinha um busto enorme"
B) "um pai dono de livraria"
C) "enchia os dois bolsos da blusa com balas"
D) "era gorda, baixa, sardenta"

5. Em qual alternativa há uma figura de linguagem que relaciona palavras com sentidos contrários?
A) "Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo."
B) "ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai."
C) "possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter"
D) "eu nem notava as humilhações a que ela me submetia"

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Atividade sobre a peça teatral "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna


Atividade para aula de língua portuguesa/literatura por meio de exercícios a partir de análise e interpretação de um fragmento da peça  "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna

O texto a seguir é um fragmento do "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, uma peça teatral de fundo popular e religioso.
O trecho faz parte da cena do julgamento, na qual as personagens, após a morte, aguardam uma decisão quanto a seu futuro. O Encourado, que as recebe, manda o Demônio levá-las para o inferno. As personagens, aos gritos, resistem. Repentinamente, João Grilo, falando bem alto, diz que tem direito a um julgamento. As outras personagens o apoiam. Nesse momento, pancadas de sino começam a soar. O Encourado fica agitado.

"JOÃO GRILO - Ah! pancadinhas benditas! Oi, está tremendo? Que vergonha, tão corajoso antes, tão covarde agora! Que agitação é essa?
ENCOURADO - Quem está agitado? É somente uma questão de inimizade. Tenho o direito de me sentir mal com aquilo que me desagrada.
JOÃO GRILO - Eu, pelo contrário, estou me sentindo muito bem. Sinto-me como se minha alma quisesse cantar.
BISPO, estranhamente emocionado. - Eu também. É estranho, nunca tinha experimentado um sentimento como esse. Mas é uma vontade esquisita, pois não sei bem se ela é de cantar ou de chorar.
Esconde o rosto entre as mãos. As pancadas do sino continuam e toca uma música de aleluia. De repente, João ajoelha-se, como que levado por uma força irresistível e fica com os olhos fixos fora. Todos vão-se ajoelhando vagarosamente. O Encourado volta rapidamente as costas, para não ver o Cristo que vem entrando. É um preto retinto, com uma bondade simples e digna nos gestos e nos modos. A cena ganha uma intensa suavidade de Iluminura. Todos estão de joelhos, com o rosto entre as mãos.
ENCOURADO, de costas, grande grito, com o braço ocultando os olhos - Quem é? É Manuel?
MANUEL - Sim, é Manuel, o Leão de Judá, o Filho de Davi. Levantem-se todos, pois vão ser julgados.
JOÃO GRILO - Apesar de ser um sertanejo pobre e amarelo, sinto perfeitamente que estou diante de uma grande figura. Não quero faltar com o respeito a uma pessoa tão importante, mas se não me engano aquele sujeito acaba de chamar o senhor de Manuel.
MANUEL - Foi isso mesmo, João. Esse é um de meus nomes, mas você pode me chamar também de Jesus, de Senhor, de Deus... Ele gosta de me chamar Manuel ou Emanuel, porque pensa que assim pode se persuadir de que sou somente homem. Mas você, se quiser, pode me chamar de Jesus.
JOÃO GRILO - Jesus?
MANUEL - Sim.
JOÃO GRILO - Mas, espere, o senhor é que é Jesus?
MANUEL - Sou.
JOÃO GRILO - Aquele Jesus a quem chamavam Cristo?
JESUS - A quem chamavam, não, que era Cristo. Sou, por quê?
JOÃO GRILO - Porque... não é lhe faltando com o respeito não, mas eu pensava que o senhor era muito menos queimado.
BISPO - Cale-se, atrevido.
MANUEL - Cale-se você. Com que autoridade está repreendendo os outros? Você foi um bispo indigno de minha Igreja, mundano, autoritário, soberbo. Seu tempo já passou. Muita oportunidade teve de exercer sua autoridade, santificando-se através dela. Sua obrigação era ser humilde porque quanto mais alta é a função, mais generosidade e virtude requer. Que direito tem você de repreender João porque falou comigo com certa intimidade? João foi um pobre em vida e provou sua sinceridade exibindo seu pensamento. Você estava mais espantado do que ele e escondeu essa admiração por prudência mundana. O tempo da mentira já passou.
JOÃO GRILO - Muito bem. Falou pouco mas falou bonito. A cor pode não ser das melhores, mas o senhor fala bem que faz gosto.
MANUEL - Muito obrigado, João, mas agora é sua vez. Você é cheio de preconceitos de raça. Vim hoje assim de propósito, porque sabia que isso ia despertar comentários. Que vergonha! Eu Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, como podia ter nascido preto. Para mim, tanto faz um branco como um preto. Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça?
PADRE - Eu, por mim, nunca soube o que era preconceito de raça.
ENCOURADO, sempre de costas para Manuel - É mentira. Só batizava os meninos pretos depois dos brancos.
PADRE - Mentira! Eu muitas vezes batizei os pretos na frente.
ENCOURADO - Muitas vezes, não, poucas vezes, e mesmo essas poucas quando os pretos eram ricos.
PADRE - Prova de que eu não me importava com cor, de que o que me interessava...
MANUEL - Era a posição social e o dinheiro, não é, Padre João? Mas deixemos isso, sua vez há de chegar. Pela ordem, cabe a vez ao bispo. (Ao Encourado.) Deixe de preconceitos e fique de frente.
ENCOURADO, sombrio - Aqui estou bem.
MANUEL - Como queira. Faça seu relatório
JOÃO GRILO - Foi gente que eu nunca suportei: promotor, sacristão, cachorro e soldado de polícia. Esse aí é uma mistura disso tudo.
MANUEL - Silêncio, João, não perturbe. (Ao Encourado.) Faça a acusação do bispo. (Aqui, por sugestão de Clênio Wanderley, o Demônio traz um grande livro que o Encourado vai lendo.)"

# Exercícios:
1. O texto teatral e o texto narrativo apresentam semelhanças: tanto um quanto o outro narram fatos vividos por personagens em determinado tempo e lugar.
a) Qual é o fato principal desse texto?
b) Onde possivelmente ocorrem os fatos?
c) Qual é, aproximadamente, o tempo de duração dessa cena?

2. Nesse texto, o narrador está ausente. Apesar disso, conseguimos ter uma visão ampla acerca das personagens.
a) Que ideia você faz de João Grilo e do bispo?
b) De que forma as características de cada personagem nos são reveladas, se não há narrador?

3. No texto teatral, as falas das personagens assumem um papel de destaque na construção da história. Como é reproduzida a fala das personagens: pelo discurso direto e indireto?

4. Há, no texto teatral, alguns trechos em letra do tipo diferente, ou seja, itálico, como, por exemplo:
"BISPO, estranhamente emocionado
Todos vão se ajoelhando vagarosamente
ENCOURADO, sempre de costas para Manuel"

Qual é a função desses trechos?

5. O texto teatral é escrito para ser representado. Nessa cena, que tipo de variedade linguística predomina:
a) culto formal     b) culto informal     c) regional     d) popular

6. Quando se lê um texto teatral, o leitor é o interlocutor do drama vivido pelas personagens. Quem é o interlocutor quando o texto teatral é representado?

Fonte: Português: Linguagens. CEREJA e MAGALHÃES Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

# RESPOSTAS (GABARITO)

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terça-feira, 19 de maio de 2020

Atividade sobre o livro "Primeiras Estórias", de Guimarães Rosa




Leia o texto abaixo - um fragmento do livro "Primeiras Estórias", do escritor Guimarães Rosa - representante da Terceira Geração do Modernismo:

A terceira margem do rio

     Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente – minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
     Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. [...] Nosso pai nada dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma de outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
     Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: – “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: – “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa. [...]
ROSA, J. G. Primeiras estórias. 1ª ed. especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. p. 77-78. Fragmento. 

# Questões:
1. De acordo com esse texto, o pai era um homem
A) ingênuo.
B) orgulhoso.
C) retraído.
D) rígido.
E) sonhador.

2. Essa história tem início quando
A) a canoa especial fica pronta.
B) a mãe fica contra a ideia do pai.
C) o filho pede para ir com o pai.
D) o pai manda fazer uma canoa.
E) o pai vai embora na canoa.

3. No trecho “E a canoa saiu se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.” (ℓ. 22-23), o recurso estilístico utilizado é
A) comparação.
B) exagero.
C) oposição de ideias.
D) personificação.
E) repetição de sons.

4. No trecho “Ele só retornou o olhar em mim,...” (ℓ. 20-21), o termo "Ele" se refere a
A) irmão.
B) menino.
C) pai.
D) remador.
E) rio.

5. Nesse texto, no trecho “... ralhava no diário com a gente...” (ℓ. 4-5), a expressão "ralhava no diário" significa que a mãe
A) brigava pelos direitos dos filhos.
B) cobrava dos filhos os deveres do dia a dia.
C) descrevia os acontecimentos do dia a dia.
D) pedia que os filhos contassem como foi o dia.
E) reclamava dos filhos com o pai.

6. No trecho “Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu...” (ℓ. 14), a expressão "Sem alegria nem cuidado" dá ideia de
A) causa.
B) finalidade.
C) lugar.
D) modo.
E) tempo.

7. De acordo com esse texto, a canoa teve de ser fabricada forte e resistente porque
A) a mãe era contra a sua construção.
B) deveria caber um remador.
C) era feita de pau de vinhático.
D) o pai era um homem sério e ordeiro.
E) precisava resistir à água por anos.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Aula sobre Modernismo (3ª fase) - poesia de João Cabral de Melo Neto



# MODERNISMO NO BRASIL (TERCEIRA FASE)
Na terceira fase do modernismo - também chamada de “Geração de 45”, os escritores possuíam uma atitude mais formal, em oposição ao espírito radical, contestador e de liberdade desenvolvido na Semana de 1922.

# Características
As principais características da terceira geração modernista são: academicismo; retorno ao passado; oposição à liberdade formal; experimentações artísticas (ficção experimental); realismo fantástico (contos fantásticos); retorno à forma poética (valorização da métrica e da rima); influência do Parnasianismo e Simbolismo; inovações linguísticas e metalinguagem; regionalismo universal; temática social e humana; linguagem mais objetiva.

O texto abaixo é uma do poema "O relógio", do poeta João Cabral de Melo Neto, da Terceira Fase do Modernismo. Nota-se que cada estrofe é composta por quatro versos (linhas), o que demonstra a preocupação do poeta com o rigor formal.

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Uma vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade

que continua cantando
se deixa de ouvi-lo a gente:
como a gente às vezes canta
para sentir-se existente.

# Questões:
1. Nas duas primeiras estrofes, o poeta usa duas metáforas para se referir ao "relógio": "jaula" e "gaiola". Isso ocorre porque essas duas palavras possuem ideia de
a) conexão
b) prisão
c) ciclo
d) vida
RESPOSTA

2. Nos versos "se ouve um bicho... / de pássaro cantor", as palavras "bicho" e "pássaro se referem a que parte do relógio?
a) os ponteiros
b) a que produz som
c) as várias engrenagens
d) a pulseira
RESPOSTA
 
3. O que podemos interpretar nos versos "a gente às vezes canta / para sentir-se existente"?
a) às vezes o homem tenta se expressar simplesmente para sentir que está vivo
b) o poeta procurar destacar o fato de sempre pensar em sobrevir ao tempo
RESPOSTA

4. Qual o nível de linguagem predominante neste poema?
a) informal
b) coloquial
c) culto
d) cotidiano
RESPOSTA

5. Considerando a rigidez da estrutura do poema (estrofes e versos) e pelo emprego fiel da pontuação, podemos afirmar que o poeta faz uso de
a) versos livres
b) versos padrões
RESPOSTA

6. No verso "se deixa de ouvi-lo a gente" (última estrofe), o pronome "lo" se refere a qual palavra expressa anteriormente?
a) bolso
b) homem
c) pássaro
d) bicho
RESPOSTA
 
7. No verso "pois delas se emite um canto" (penúltima estrofe), a conjunção "pois" indica ideia de
a) oposição
b) conclusão
c) explicação
d) adição
RESPOSTA
 
8. No verso "Como a gente às vezes canta" (último verso), a conjunção "como" indica a ideia de
a) causa
b) comparação
c) condição
d) conformidade