terça-feira, 22 de setembro de 2026

Questões ENEM com poesias do Modernismo 2ª fase

1. Enem 2020:

Caso pluvioso

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.

A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.

E eu era todo barro, sem verdura…
maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,
Matinal e noturna, ativa… Nossa!
(Carlos Drummond de Andrade)

Considerando-se a exploração das palavras “maria” e “chuvosíssima” no poema, conclui-se que tal recurso expressivo é um(a)
A) registro social típico de variedades regionais.
B) variante particular presente na oralidade.
C) inovação lexical singularizante da linguagem literária.
D) marca de informalidade característica do texto literário.
E) traço linguístico exclusivo da linguagem poética


2. ENEM 2019

Canção

No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas…
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto.

Quando as ondas te carregaram
meus olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.
(Cecília Meireles)

Na composição do poema, o tom elegíaco e solene manifesta uma concepção de lirismo fundada na 
A) contradição entre a vontade da espera pelo ser amado e o desejo de fuga. 
B) expressão do desencanto diante da impossibilidade da realização amorosa. 
C) associação de imagens díspares indicativas de esperança no amor futuro.
D) recusa à aceitação da impermanência do sentimento pela pessoa amada. 
E) consciência da inutilidade do amor em relação à inevitabilidade da morte.


3. Enem 2003:

Pequenos tormentos da vida
De cada lado da sala de aula, pelas janelas altas, o
azul convida os meninos,
as nuvens desenrolam-se, lentas como quem vai
inventando
preguiçosamente uma história sem fim...
Sem fim é a aula: e nada acontece,
nada... Bocejos e moscas. Se, ao menos, pensa
Margarida, se ao menos um
avião entrasse por uma janela e saísse por outra!
(Mário Quintana, Poesias)

Na cena retratada no texto, o sentimento do tédio:
A) provoca que os meninos fiquem contando histórias.   
B) leva os alunos a simularem bocejos, em protesto contra a monotonia da aula.   
C) acaba estimulando a fantasia, criando a expectativa de algum imprevisto mágico.  
D) prevalece de modo absoluto, impedindo até mesmo a distração ou o exercício do pensamento.   
E) decorre da morosidade da aula, em contraste com o movimento acelerado das nuvens e das moscas.  


4. Enem 2024

Feijoada à minha moda

Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora — perdoe — tão tarde
(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.
Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho.
Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão
[…]
De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)
[…]
Enquanto ao lado, em fogo brando
Desmilinguindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso
Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.
[…]
Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta… — jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin,
O seu Vinicius de Moraes.
(Vinícius de Moraes)

Apesar de haver marcas formais de carta e receita, a característica que define esse texto como poema é o(a)
A) nomeação de um interlocutor.
B) manifestação de intimidade.
C) descrição de procedimentos.
D) utilização de uma linguagem expressiva.
E) apresentação de ingredientes culinários.


5. ENEM 2006

(…)
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
(…)
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
trouxeste a chave?
(Carlos Drummond de Andrade)

Esse fragmento poético ilustra o seguinte tema constante entre autores modernistas:
a) a nostalgia do passado colonialista revisitado.
b) a preocupação com o engajamento político e social da literatura.
c) o trabalho quase artesanal com as palavras, despertando sentidos novos.
d) a produção de sentidos na busca da perfeição poética.
e) a contemplação da natureza brasileira e ufanista da pátria.

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